O 1.5 °C é um limite moral. Seria a última chance de salvar muitos países de baixa altitude e as populações vulneráveis que vivem em regiões costeiras.

Em agosto passado, eu estava em Kerala, meu estado de origem na Índia.

É um longo e estreito trecho de terra entre as passagens Ocidentais e o Mar da Arábia, um paraíso tropical coberto por uma exuberante vegetação verde, graças às copiosas chuvas de monções.

As chuvas de monção foram diferentes neste ano, quase o dobro da média.

Em meio de agosto, houveram algumas áreas que receberam até 500% mais precipitação. As fortes inundações que seguiram devastaram 11 dos 14 distritos de Kerala. Quase 500 pessoas perderam a vida e mais de um milhão de pessoas ficaram desabrigadas.

Posso me lembrar vividamente do relato de minha sobrinha dessas chuvas. Ela estava em casa no dia 14 de agosto com seus dois filhos pequenos. Seu marido estava no trabalho. Por volta das 21 horas, ela percebeu que as águas da inundação estavam chegando à porta deles. As crianças começaram a chorar. Ela começou a entrar em pânico. Coletando algumas coisas essenciais e segurando os dois filhos, ela partiu no escuro para a casa de um familiar situada a um quilômetro de distância.

As águas da inundação continuaram a subir. Felizmente para eles, um barco de bombeiros chegou para salvar-los. Mas só havia lugar para as crianças no barco por que já estava cheio de pessoas idosas e doentes. Então, minha sobrinha optou por acompanhá-los andando atrás do barco. Mas as águas estavam subindo perigosamente e em um momento ela teve que começar a nadar.

As águas subiram ainda mais, e foi isso que ela me disse: “Tio, a certa altura, pensei que seria arrastada pelas águas da enchente. Pensei que nunca mais ia ver meus filhos. ”Exatamente nesse momento chegou um caminhão de bombeiros e ela foi salvada.

Aviso claro

Em todo o mundo, estamos vendo os impactos da mudança climática sobre as pessoas em termos de condições climáticas extremas, como secas e cheias, aumento do nível das aguas do mar, tempestades devastadoras, além de outras mudanças. Estas são as consequências do aumento da temperatura média global de pouco mais de 1 ° C desde 1850, o início da era industrial. Mas agora sabemos que pode ser ainda muito pior.

Aprovado por quase 200 países em 2015, o Acordo Climático de Paris aponta manter a temperatura média global da superfície “bem abaixo de 2 ° C” e “buscar esforços” para limitar o aumento a 1.5 ° C. Como resultado desse acordo, o painel de ciência climática da ONU – o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – foi solicitado a explorar as consequências do aquecimento de um 1.5 ° C.

Seu relatório desta semana destaca uma série de impactos da mudança climática que poderiam ser evitados limitando o aquecimento global a 1,5 ° C em comparação com 2 ° C, ou mais. Um aquecimento de meio grau, de fato, fará uma enorme diferença. Por exemplo, em 2100, a elevação global do nível do mar seria 10 cm mais baixa com o aquecimento global de 1.5°C comparado com 2 ° C.

Isso significa que menos de 10 milhões de pessoas estariam expostas a riscos relacionados, como aumento da intrusão de água salgada, cheias e casas danificadas. A probabilidade de um oceano Ártico livre de gelo marinho no verão seria uma vez por século com aquecimento global de 1.5 ° C, em comparação com pelo menos uma vez por década com 2 ° C. Os recifes de corais declinariam de 70%- 90% com o aquecimento global de 1.5 ° C, enquanto que praticamente todos seriam perdidos a 2 ° C.

O limite de 1.5 ° C é um limiar físico crucial. É a última chance que temos para evitar uma catástrofe climática.

Uma missão católica?

O 1.5 ° C é também um limite moral. Seria a última chance de salvar muitos dos países de baixa altitude e as populações vulneráveis que vivem nas regiões costeiras. As primeiras vitimas desproporcionais da mudança climática são as populações pobres e vulneráveis que, ironicamente, contribuíram o menos para causar isso em primeiro lugar.

Podemos recordar a este respeito as palavras proféticas de São João Paulo II, que já em 1990 falava da crise ecológica como uma “crise moral”. É uma questão de responsabilidade moral também para as gerações futuras. Uma das questões mais poderosas levantadas pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ é: “Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que vêm depois de nós, para as crianças que estão crescendo agora?”

Eu acredito que 1.5 ° C é também um limite teológico.

O mundo que estamos destruindo é de Deus, o lar santificado pelo Espírito de Deus (Ruah) no começo da criação, o lugar onde Deus armou Sua tenda entre nós (João 1:14), como lemos no prólogo de o Evangelho de João. Como o Papa Bento XVI escreveu em Sacramentum caritas: “O mundo não é algo indiferente, matéria-prima a ser utilizada como achamos apropriado”.

É a criação de Deus. Como os bispos dos EUA escreveram em 2001, “se prejudicarmos a atmosfera, desonramos nosso Criador e o dom da criação”.

É o momento para ser incendiado pelo “zelo pelo nosso lar comum” (Jo 2:17). Não podemos nos dar ao luxo de ser testemunhos silenciosos da destruição de nosso lar comum.

Não podemos simplesmente sentar e observar as empresas petrolíferas perfurando reservas fósseis, enquanto é claro que precisaremos manter a maioria das reservas de petróleo no subsolo se quisermos cumprir as metas do Acordo de Paris – como o próprio Papa Francisco lembrou aos executivos do petróleo em junho passado no Vaticano.

Uma jornada pessoal

De acordo com o relatório do IPCC, limitar o aquecimento global a 1.5 ° C exigiria transições “rápidas e de longo alcance” em terra, energia, indústria, edifícios, transporte e cidades. As emissões globais líquidas de dióxido de carbono (CO2) causadas pelo homem teriam que cair cerca de 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030, atingindo o “net zero” por volta de 2050.

Todos nós precisaremos abraçar mudanças radicais em nossos estilos de vida, uso de energia, consumo, transporte, produção industrial, agricultura, etc. Cada um de nós precisa de agir. Também precisamos de agir juntos, com governos e instituições a famílias e indivíduos.

Precisamos nos unir como Igrejas para proteger nosso lar (Oikoumene), precisamos nos unir como religiões – seremos mais de dois terços da humanidade! – Precisamos trabalhar com a sociedade civil e todas as pessoas de boa vontade para enfrentar este desafio sem precedente na história da humanidade.

O relatório do IPCC avisa que vamos ultrapassar o marcador de 1,5 ° C até 2040. Na verdade, a trajetória atual projeta um mundo de 3 ° C ou 4 ° C! É uma questão de extrema urgência e estamos correndo contra o tempo. Para permanecer abaixo do limite de 1,5 ° C com o nível atual de emissões, quase não temos uma década de tempo.

“Os próximos anos são provavelmente os mais importantes da nossa história”, disse Debra Roberts, co-presidente do Grupo de Trabalho do IPCC II na segunda-feira no lançamento do relatório.

É uma última chamada para o nosso planeta Terra, nosso lar comum.

Joshtrom Kureethadam é Coordenador do “Setor de Ecologia e Criação no Dicastério Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral”

Este artigo foi publicado no periódico THE TABLET – The International Catholic newsweekly. Pode ser acessado online aqui.

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